Sexta-feira, Julho 10, 2009

Tim Ries – Rolling Stones Project [São Jorge 09/07/09]

Ás 22:00 no antigo cinema São Jorge. Deu-se inicio a uma simpática viagem de 2 horas pelo universo dos Stones, reinventado por um dos seus criadores. Não era a sua primeira vez em Lisboa, da qual se declarou fã assumido (fiquei sem perceber se já comprou, ou está a beira de comprar uma casa em Alfama).
Tim Ries monta em palco o seu recreio, com gente com quem gosta de tocar. É a sensação com que se fica. Na voz [Bernard Fowler] a profundidade negra dos Blues, e a técnica vocal do jazz aplicados em temas dos Stones e do próprio, são seda.
Ana Moura, entra com Custódio Castelo [Guitarra Portuguesa] Jorge Fernando [Viola] e em palco mantém-se o resto do quarteto de Tim Ries, e é o momento mágico, Ana Moura empresta a voz num primeiro momento, a No Expectations, e num segundo a Brown Sugar. Tudo corre bem, ela está com a voz melhor que nunca (recordo que ainda à pouco tempo foi submetida a uma intervenção cirúrgica), e tem um boa capacidade de adaptação aos blues. O auge desta fusão em palco, que atinge momentos de jam session, estava no namoro entre a guitarra de Custodio Castelo e o Sax de Ries (bem secundados por Jorge Fernando na viola). O resto da banda diverte-se, curiosa com o som produzido pela guitarra, e pela coreografia que Castelo entrega a cada tema.Foi muito bom e suave sem grandes exaltações, o chamado bom programa. O engraçado neste senhor, é que o Projecto Stones, passa por ele ter aproveitado a ultima tournée da banda (que rodou o mundo inteiro e demorou 2 anos) para recolher sons e músicos dos sítios onde foi passando. E conta a história de que quando pensou em Portugal, estava no Japão e arrancou para uma loja e comprou 4 Cd’s de fado de gente que ele não conhecia, mas sabia serem novas vozes. Encontrou Ana Moura, e percebeu que queria tê-la no projecto. Na simplicidade com que se rodeia, termina a contar a história de que as suas 2 filhas adormeciam a ouvir um CD de Ana Moura, e que quando das 1ªs gravações em NY, convidou a voz tuga a ficar em sua casa. Nessa noite as crianças foram adormecidas ao som da voz original. Ainda há senhores por aí.

Segunda-feira, Julho 06, 2009

Buika – Niña de Fuego

“Reconozco que me enloquecen tus carnes
Reconoce que te enamoran las mías,
Así que si me mientes casi dentro de mi boca,
Te regalo el resto de mis dias.”
In “Mienteme Bien”

Assim é uma das agradáveis surpresas deste verão (pelo menos para mim). Chama-se Buika, é espanhola por todos os lados e vem de Palma de Maiorca. Canta, no cozinhado mais bem conseguido do flamenco e do jazz, que conheço. De tradicional tem muito pouco, mas entrega aos textos um toque mágico, e ao mesmo tempo (qual droga leve) leva-nos para dentro e faz-nos transpirar de prazer.
Os músicos são as mãos que a seguram, num plano que não vos consigo descrever. A caixa que envolve a edição que tenho comigo, é de uma qualidade estética, bem acima da média. As fotos são uma viagem a sua intimidade, muito bem conseguida, sem entrar no disparate ou vulgaridade.
Atenção especial – La Boheme. É uma viagem muito bem conseguida.
Se quiserem, comparem o Volver de Buika com o de Estrella Morente, são os dois cantados de forma sublime e completamente diferente. Não consigo eleger um.
Recomendo a audição em noites de Verão, ou fim de tardes quentes, com cores quentes no horizonte. Acompanhem com o que quiserem e com quem quiserem e achem merecedor.
E se nos mentirem, que seja assim
.

O dia da criação - Vinicius de Moraes


Macho e fêmea os criou.Gênese, 1, 27

I
Hoje é sábado, amanhã é domingo A vida vem em ondas, como o mar Os bondes andam em cima dos trilhos E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo Não há nada como o tempo para passar Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal. Hoje é sábado, amanhã é domingo Amanhã não gosta de ver ninguém bem Hoje é que é o dia do presente O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas Todos os maridos estão funcionando regularmente Todas as mulheres estão atentas Porque hoje é sábado.

II
Neste momento há um casamento Porque hoje é sábado Hoje há um divórcio e um violamento Porque hoje é sábado Há um rico que se mata Porque hoje é sábado Há um incesto e uma regata Porque hoje é sábado Há um espetáculo de gala Porque hoje é sábado Há uma mulher que apanha e cala Porque hoje é sábado Há um renovar-se de esperanças Porque hoje é sábado Há uma profunda discordância Porque hoje é sábado Há um sedutor que tomba morto Porque hoje é sábado Há um grande espírito-de-porco Porque hoje é sábado Há uma mulher que vira homem Porque hoje é sábado Há criançinhas que não comem Porque hoje é sábado Há um piquenique de políticos Porque hoje é sábado Há um grande acréscimo de sífilis Porque hoje é sábado Há um ariano e uma mulata Porque hoje é sábado Há uma tensão inusitada Porque hoje é sábado Há adolescências seminuas Porque hoje é sábado Há um vampiro pelas ruas Porque hoje é sábado Há um grande aumento no consumo Porque hoje é sábado Há um noivo louco de ciúmes Porque hoje é sábado Há um garden-party na cadeia Porque hoje é sábado Há uma impassível lua cheia Porque hoje é sábado Há damas de todas as classes Porque hoje é sábado Umas difíceis, outras fáceis Porque hoje é sábado Há um beber e um dar sem conta Porque hoje é sábado Há uma infeliz que vai de tonta Porque hoje é sábado Há um padre passeando à paisana Porque hoje é sábado Há um frenesi de dar banana Porque hoje é sábado Há a sensação angustiante Porque hoje é sábado De uma mulher dentro de um homem Porque hoje é sábado Há uma comemoração fantástica Porque hoje é sábado Da primeira cirurgia plástica Porque hoje é sábado E dando os trâmites por findos Porque hoje é sábado Há a perspectiva do domingo Porque hoje é sábado III Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação. De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado. Na verdade, o homem não era necessário Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão. Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra. Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia. Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em [cópula. Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e [sim no Sétimo E para não ficar com as vastas mãos abanando Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança Possivelmente, isto é, muito provavelmente Porque era sábado.

Domingo, Julho 05, 2009

CARMINHO*Fado [Emi 2009]

De volta ao princípio, de volta ao fado. Uma amiga foi-me chamando a atenção para esta senhora, e andei à pesca durante uns tempos para tentar ouvir, e por desencontros vários não consegui.
A determinada altura consegui, uma homenagem à Amália no Campo Pequeno. As condições não eram as melhores e diga-se que não é justo, em palco estiveram para além da Carminho, Camané, Marisa e outros. O som era mau, mas ficou a dúvida.
Mais uma vez, a mesma amiga, diz-me que a Carminho, já tinha um disco. E ai fui eu, comprei o disco estou a ouvi-lo pela segunda vez consecutiva na mesma tarde.
A Carminho é senhora de uma boa voz, que vai ainda atingir outros patamares. A utilização do instrumento é genuína. A alma está lá. (se está !!!) Ouçam a faixa 5 - Espelho Quebrado (David Mourão Ferreira* Alain Oulman), ajuda muito ter quem escreva, mas sem voz ou sentimento este texto seria um desperdício, no teu caso Carminho, isso não se verifica.
Os músicos que contigo trabalham são sólidos e tem rasgos de virtuosismo, que cada vez mais vão faltando.
Os elogios são merecidos, ficam alguns alertas: Velocidade: Atacas (em alguns temas) antecipadamente as frases, que faz com que te falte o ar para o resto, gerando aqui um desequilíbrio, para quem te ouve. Arranjos: A espaços á demasiados instrumentos em simultâneo. (o homem do contrabaixo -Marino de Freitas é excepcional).
Tens uns graves notáveis, e parece-me ser ai a “tua praia”, não tenhas medo de soltar a voz quando sobes, o que parece no disco e que te defendes/retrais.
Fica a vontade de ouvir a Carminho em ambiente mais íntimo de fado, vou estar atento pode ser que consiga apanhar-te por aí. A alma na voz é uma dadiva, e não aparece com a idade, ganha corpo ao longo do tempo.

Quinta-feira, Março 05, 2009

Milk – O Filme


Vi ontem o filme, que atribuiu o Óscar na categoria de Melhor Actor a Sean Penn.
Pelo que vi este ano, foi bem atribuído, um desempenho excelente, grande metamorfose a quem já vimos a fazer papéis nos antípodas deste.
O filme que pode e deve servir de pontapé de saída para um debate sobre maturidade democrática e capacidade de aceitar a diferença em qualquer lado.
A resenha histórica dentro de filme, relata-nos o confronto entre a perspectiva do Loby Gay e do Conservadorismo Católico no mais depreciativo que este conceito tem. (porque há um conservadorismo católico que eu respeito, e há um outro tipo de conservadorismo católico que ainda hoje não consigo destrinçar daquilo a que chama-mos fanatismo).
Em plena década de 70 esteve à beira de ser aprovada uma norma que atribuía ao estado e ás empresas o poder de dispensar trabalhadores, baseados na sua orientação sexual. Leia-se:
Heterossexuais – Ok ; Homossexuais – Not Ok.
Venceu o bom senso, mas não se pense que foi fácil.
Os argumentos, em plena década de 70, passavam por dizer que os Homossexuais, era uma espécie de foco de doenças, que iriam educar (no caso dos professores) as crianças de forma pervertida. (a meio do filme, imagens reais das manifestações à época há um cartaz fabuloso que diz qualquer coisa como “Eu ensino Espanhol não ensino Sexo”), e outros argumentos de exclusão.

Desde 78, até hoje, já ouvi este tipo de argumentos aplicados uma serie de vezes em alturas de agitação social distintas, como por exemplo, o aparecimento da SIDA (grupos alvos do castigo divino – Homossexuais e Drogados).
Parece que já estou a ouvir os motores dos Guardiões do Templo da Moralidade, a aquecer para o debate sobre a adopção de crianças por casais Homossexuais. ( e os argumentos anteriores vão surgir, disfarçados de coisas como – Como é que as crianças vão perceber o que é certo ?).
Para que conste, a História ensinou-nos que foi em movimentos sociais de ruptura que mais se evoluiu.
Acredito que perdemos tempo de mais na definição de politicas de exclusão, em vez de tratarmos de criar estratégias de inclusão / aceitação à diferença.
Sou heterossexual e católico, mas acredito que se fosse homossexual, Deus não se iria preocupar com isso.
Acredito também que a minha forma de estar não deve ser decretada como a correcta. (Deus nos livre!).
Se o texto atrás servir para iniciar um debate construtivo sobre isto, óptimo, contem comigo. Se for para arremesso de convicções inabaláveis em forma pedra, não vou. Dizia um amigo meu convidado para um debate televisivo outro dia, que ter um adversário é desejável (alguém com ideias diferentes das nossas), um inimigo (conceito de Guerra) não. É por aí.

Domingo, Março 01, 2009

Mais de um ano depois, cá estamos.
Descobri a 27 de Fevereiro deste mesmo ano o John Mayer. Para quem gosta de Dave Mathews (eu gosto e muito), é uma comparação possível, ou se quiserem, afina pela mesma batuta. Em troca se SMS’s com um amigo sobre este senhor, ele escreveu, “ esse rapaz é a velha história, de branco que cresceu e tocou com preto”, no melhor que esta expressão tem. Ou seja, há claramente um registo sentimental, de profundidade, de explosão (se quisermos) nos músicos e estilos negros, e há alguns brancos que foram abençoados por essa capacidade de, poderem atravessar a mesma estrada. John Mayer é um deles, como Clapton também.
O som é um rock acústico, perto dos blues em muitos registos, o senhor tem um registo vocal muito bom, é um disco absorvente.
O disco é de 2008, encontrei-o na Fnac, a bom preço, 11€ por um duplo não me parece mau negócio.
A partir de hoje fica a promessa de não estar tanto tempo ausente.

Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008

Amy Winehouse - Back To Black


It's not just my pride
It's just 'til these tears have dried.
In letra de –Rehab

É hoje conhecido o triunfo de Amy Winehouse na cerimónia de ontem dos Gramy’s . A todos os títulos uma vitória memorável, e uma machadada no “puritanismo” bacoco americano.
A cantora actuou a partir de Londres por estar numa cura de desintoxicação, e (a parte que quando li mal podia acreditar) por ser “persona non grata” na cerimónia. Ainda
assim a academia teve a coragem de lhe conceder 5 prémios.
Este tipo de acontecimentos irrita-me porque:
Grande parte dos maiores criadores tinham “vicios” deste género (drogas; álcool; etc.). Não defendo que seja um modelo de vida ou de criação, mas defendo que toda a gente pode fazer o que quiser de si, sem que isso conduza a uma influencia nefasta no mundo que a rodeia.
Imaginemos os Gramy’s se os Stones recusassem um convite?
Ou se Clapton os mandasse passear?

E poderíamos entrar aqui numa lista quase interminável de ilustres personagem que tinham fortes e bastos vícios, mas que em simultâneo, criaram verdadeiros marcos musicais em nós. Quando falo em referencias musicais refiro-me naquilo que esta provoca em nós.
Este “não convite” significa o fim da redenção, ou do deixar de acreditar na recuperação do outro, seja lá de que problema for.
Ela não serve de exemplo de coisa nenhuma, ela é um símbolo não por se drogar, mas por aquilo que canta e este fantástico disco que produziu.
Li algures que ela própria se define como um cantor negro num corpo de mulher branca. A definição parece-me brilhante e corresponde ao som que ouvimos.
Tem força, tem sedução, tem charme na forma como diz as coisas, o RB ganhou claramente uma voz.
Uma coisa curiosa é a imagem, não cola à voz, quando a ouvi pela primeira vez estava à espera de alguma coisa entre Aretha Franklin e Solomon Bourke, mas a figura em nada corresponde, franzina em branco, e de pequena estatura. Mas uma coisa me parece certa, quem consegue cantar neste registo é bem capaz de ter força para enfrentar outros desafios que a vida lhe coloque.
Quem tem a humildade de actuar a partir de Londres de um “aquário” para que a América visse quem tinha coroado, sem se molhar nas águas sujas das Humanidades da cantora, merece todo o meu respeito e admiração.
Grande trabalho, que se estranha mas depois entranha.

Sábado, Janeiro 19, 2008

Vamos dizer isto uma última vez! (ao Olimpio) – guarda isto, que quando me chamarem deve ser para ao pé de ti.


Vou, vou-vos mostrar mais um pedaço da minha vida, um pedaço um pouco especial, trata-se de um texto que foi escrito, assim, de um só jorro, numa noite de Fevereiro de 79, e que talvez tenha um ou outro pormenor que já não é muito actual. Eu vou-vos dar o texto tal e qual como eu o escrevi nessa altura, sem ter modificado nada, por isso vos peço que não se deixem distrair por esses pormenores que possam ser já não muito actuais e que isso não contribua para desviar a vossa atenção do que me parece ser o essencial neste texto.Chama-se FMI.Quer dizer: Fundo Monetário Internacional.Não sei porque é que se riem, é uma organização democrática dos países todos, que se reúnem, como as pessoas, em torno de uma mesa para discutir os seus assuntos, e no fim tomar as decisões que interessam a todos...É o internacionalismo monetário!
FMI
Cachucho não é coisa que me traga a mimMais novidade do que lagostimNariz que reconhece o cheiro do pilimDistingue bem o mortimor do meirimA produtividade, ora aí está, quer dizerHá tanto nesta terra que ainda está por fazerEntrar por aí a dentro, analisar, e entãoDo meu 'attachi-case' sai a solução!
FMI Não há graça que não faça o FMIFMI O bombástico de plástico para siFMI Não há força que retorça o FMI
Discreto e ordenado mas nem por isso fracoEis a imagem 'on the rocks' do cancro do tabacoEnfio uma gravata em cada fato-macacoE meto o pessoal todo no mesmo sacoA produtividade, ora aí está, quer dizerNão ando aqui a brincar, não há tempo a perderBatendo o pé na casa, espanador na mãoÉ só desinfectar em superprodução!
FMI Não há truque que não lucre ao FMIFMI O heróico paranóico 'hara-quiri'FMI Panegírico, pro-lírico daqui
Palavras, palavras, palavras e não sóPalavras para si e palavras para dóA contas com o nada que swingar o sol-e-dóDepois a criadagem lava o pé e limpa o póA produtividade, ora nem mais, célulazinhas cinzentasSempre atentasE levas pela tromba se não te pões a pauNum encontrão imediato do 3º grau!
FMI Não há lenha que detenha o FMIFMI Não há ronha que envergonhe o FMIFMI ...
Entretém-te filho, entretém-te, não desfolhes em vão este malmequer que bem-te-quer, mal-te-quer, vem-te-quer, ovomalt'e-quer, messe gigantesca, vem-te vindo, vi-me na cozinha, vi-me na casa-de-banho, vi-me no Politeama, vi-me no Águia D'ouro, vi-me em toda a parte, vem-te filho, vem-te comer ao olho, vem-te comer à mão, olha os pombinhos pneumáticos que te orgulham por esses cartazes fora, olha a Música no Coração da Indira Gandi, olha o Muchê Dyane que te traz debaixo d'olho, o respeitinho é muito lindo e nós somos um povo de respeito, né filho? Nós somos um povo de respeitinho muito lindo, saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, né filho? Consolida filho, consolida, enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela que o malmequer vai-te tratando do serviço nacional de saúde. Consolida filho, consolida, que o trabalhinho é muito lindo, o teu trabalhinho é muito lindo, é o mais lindo de todos, como o astro, não é filho? O cabrão do astro entra-te pela porta das traseiras, tu tens um gozo do caraças, vais dormir entretido, não é? Pois claro, ganhar forças, ganhar forças para consolidar, para ver se a gente consegue num grande esforço nacional estabilizar esta destabilização filha-da-puta, não é filho? Pois claro! Estás aí a olhar para mim, estás a ver-me dar 33 voltinhas por minuto, pagaste o teu bilhete, pagaste o teu imposto de transação e estás a pensar lá com os teus botões: Este tipo está-me a gozar, este gajo quem é que julga que é? Né filho? Pois não é verdade que tu és um herói desde de nascente? A ti não é qualquer totobola que te enfia o barrete, meu grande safadote! Meu Fernão Mendes Pinto de merda, né filho? Onde está o teu Extremo Oriente, filho? Ah-ni-qui-bé-bé, ah-ni-qui-bó-bó, tu és 'Sepuldra' tu és Adamastor, pois claro, tu sozinho consegues enrabar as Nações Unidas com passaporte de coelho, não é filho? Mal eles sabem, pois é, tu sabes o que é gozar a vida! Entretém-te filho, entretém-te! Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho, trabalhinho, porreirinho da Silva, e salve-se quem puder que a vida é curta e os santos não ajudam quem anda para aqui a encher pneus com este paleio de Sanzala e ritmo de pop-xula, não é filho?
A one, a two, a one two three
FMI dida didadi dadi dadi da didiFMI ...
Come on you son of a bitch! Come on baby a ver se me comes! Come on Luís Vaz, 'amanda'-lhe com os decassílabos que os senhores já vão ver o que é meterem-se com uma nação de poetas! E zás, enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares, zás, enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro de Cunhal, zás, enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros, zás, enfio-te a Natalia Correia no Sá Carneiro, zás, enfio-te o Pedro Homem de Melo no Parque Mayer e acabamos todos numa sardinhada ao integralismo Lusitano, a estender o braço, meio Rolão Preto, meio Steve McQueen, ok boss, tudo ok, estamos numa porreira meu, um tripe fenomenal, proibido voltar atrás, viva a liberdade, né filho? Pois, o irreversível, pois claro, o irreversívelzinho, pluralismo a dar com um pau, nada será como dantes, agora todos se chateiam de outra maneira, né filho? Ora que porra, deixa lá correr uma fila ao menos, malta pá, é assim mesmo, cada um a curtir a sua, podia ser tão porreiro, não é? Preocupações, crises políticas pá? A culpa é dos partidos pá! Esta merda dos partidos é que divide a malta pá, pois pá, é só paleio pá, o pessoal na quer é trabalhar pá! Razão tem o Jaime Neves pá! (Olha deixaste cair as chaves do carro!) Pois pá! (Que é essa orelha de preto que tens no porta-chaves?) É pá, deixa-te disso, não destabilizes pá! Eh, faz favor, mais uma bica e um pastel de nata. Uma porra pá, um autentico desastre o 25 de Abril, esta confusão pá, a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa... Tá bem, essa merda da pide pá, Tarrafais e o carágo, mas no fim de contas quem é que não colaborava, ah? Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, ah? Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, ah? Meia dúzia de líricos, pá, meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá, isto é tudo a mesma carneirada! Oh sr. guarda venha cá, á, venha ver o que isto é, é, o barulho que vai aqui, i, o neto a bater na avó, ó, deu-lhe um pontapé no cu, né filho? Tu vais conversando, conversando, que ao menos agora pode-se falar, ou já não se pode? Ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar, ah? Estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia, não é nada comigo, não é nada comigo, né? E os da frente que se lixem... E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada, precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho? Precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril, para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março, para os do 25 de Novembro, para os do... que dia é hoje, ah?
FMI Dida didadi dadi dadi da didiFMI ...
Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho? Todos temos culpas no cartório, foi isso que te ensinaram, não é verdade? Esta merda não anda porque a malta, pá, a malta não quer que esta merda ande, tenho dito.
A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade? Quer isto dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muita bons no fundo, né? Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né? Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-faxistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole e o Zé é que se lixa, cá o pintas azeite mexilhão, eu quero lá saber deste paleio vou mas é ao futebol, pronto, viva o Porto, viva o Benfica, Lourosa, Lourosa, Marraças, Marraças, fora o arbitro, gatuno, bora tudo p'ro caralho, razão tinha o Tonico de Bastos para se entreter, né filho? Entretém-te filho, com as tuas viúvas e as tuas órfãs que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores, entretém-te, que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais, entretém-te filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho, entretém-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar, entretém-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes, entretém-te filho e vai para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, enquanto tu adormeces a não pensar em nada, milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos com computadores, redes de policia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá! Podes estar descansado que o Teng Hsiao-Ping está a tratar de ti com o Jimmy Carter, o Brezhnev está a tratar de ti com o João Paulo II, tudo corre bem, a ver quem se vai abotoar com os 25 tostões de riqueza que tu vais produzir amanhã nas tuas oito horas. A ver quem vai ser capaz de convencer de que a culpa é tua e só tua se o teu salário perde valor todos os dias, ou de te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra é como o rio de S. Pedro de Moel que se some nas areias em plena praia, ali a 10 metros do mar em maré cheia e nunca consegue desaguar de maneira que se possa dizer: porra, finalmente o rio desaguou! Hão te convencer de que a culpa é tua e tu sem culpa nenhuma, tens tu a ver, tens tu a ver com isso, não é filho? Cada um que se vá safando como puder, é mesmo assim, não é? Tu fazes como os outros, fazes o que tens a fazer, votas à esquerda moderada nas sindicais, votas no centro moderado nas deputais, e votas na direita moderada nas presidenciais! Que mais querem eles, que lhe ofereças a Europa no natal?! Era o que faltava! É assim mesmo, julgam que te levam de mercedes, ora toma, para safado, safado e meio, né filho? Nem para a frente nem para trás e eles que tratem do resto, os gatunos, que são pagos para isso, né? Claro! Que se lixem as alternativas, para trabalho já me chega. Entretém-te meu anjinho, entretém-te, que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti, se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás-de plantar tomate para o Canada ou eucaliptos para o Japão, descansa que eles tratam disso, se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos ou hás-de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo! Descansa, não penses em mais nada, que até neste país de pelintras se acho normal haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar! Descontrai baby, come on descontrai, arrefinfa-lhe o Bruce Lee, arrefinfa-lhe a macrobiótica, o biorritmo, o euroscópio, dois ou três ofeneologistas, um gigante da ilha de Páscoa e uma Grace do Mónaco de vez em quando para dar as boas festas às criancinhas! Piramiza filho, piramiza, antes que os chatos fujam todos para o Egipto, que assim é que tu te fazes um homenzinho e até já pagas multa se não fores ao recenseamento. Pois pá, isto é um país de analfabetos, pá! Dá-lhe no Travolta, dá-lhe no disco-sound, dá-lhe no pop-xula, pop-xula pop-xula, iehh iehh, J. Pimenta forever! Quanto menos souberes a quantas andas melhor para ti, não te chega para o bife? Antes no talho do que na farmácia; não te chega para a farmácia? Antes na farmácia do que no tribunal; não te chega para o tribunal? Antes a multa do que a morte; não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir, cabrões de vindouros, ah? Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é 'pequeno burguês', o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta! Deixem-me sozinho, filhos da puta, deixem só um bocadinho, deixem-me só para sempre, tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto, já chega, sossego porra, silêncio porra, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me morrer descansado. Eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado, eu quero lá saber do Benfica e do bispo do Porto, eu quero se lixe o 13 de Maio e o 5 de Outubro e o Melo Antunes e a rainha de Inglaterra e o Santiago Carrilho e a Vera Lagoa, deixem-me só porra, rua, larguem-me, zórpila o fígado, arreda, 'terneio' Satanás, filhos da puta. Eu quero morrer sozinho ouviram? Eu quero morrer, eu quero que se foda o FMI, eu quero lá saber do FMI, eu quero que o FMI se foda, eu quero lá saber que o FMI me foda a mim, eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo se eu tornar a ir para o hospital, pronto, bardamerda o FMI, o FMI é só um pretexto vosso seus cabrões, o FMI não existe, o FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma, o FMI é uma finta vossa para virem para aqui com esse paleio, rua, desandem daqui para fora, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe...
Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe.Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...
Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de lava-colhos, assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.
Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.
José Mário Branco - FMI


Nota: FMI foi editado originalmente em 1982 no maxi Som 5051106, e reeditado em 1996 em 'Ser Solidário' ( EMI-Valentim de Carvalho). Aconselha-se vivamente a sua audição. Webmaster: franciscojmleitao@hotmail.com (08/2002)